Cliníca do Dr. Ernei Souza

Categoria: Reflexão

PSICOFARMACOLOGIA E PSICANÁLISE

O desenvolvimento da psicofarmacologia é um dos fatos mais marcantes da contemporaneidade. A introdução da clorpromazina por Delay e Denicker, em 1952, foi o momento de fundação da moderna psicofarmacologia e marco inicial de uma revolução que afetou a terapêutica, a clínica psiquiátrica, as ciências psicológicas, humanas, as neurociências e, por fim, nosso zeitgeist (termo alemão cuja tradução significa espírito da época ou sinal dos tempos). Seria necessário retomarmos os passos desta extraordinária progressão e diferenciarmos os planos em que ela se deu.

Em 70 anos, desenvolveram-se diversos medicamentos – antipsicóticos, antidepressivos, ansiolíticos, antipanico, antifóbicos, antitoc, estimulantes, estabilizadores de humor – que modificaram profundamente a prática psiquiátrica e que repercutiram muito além da prática. Impossível, para qualquer discurso atual, permanecer alheio e ignorar os feitos e efeitos da psicofarmacologia e, de forma mais ampla, das neurociências. Como afirmava L. Ferry, “se as pretensões da neurobiologia se revelassem consistentes, toda a visão da humanidade ficaria mudada, a tal ponto que as ciências humanas, a começar pela psicanálise, mas também a filosofia clássica, não poderiam mais continuar a falar da loucura, da ética ou da liberdade como fazem hoje.”

A questão da relação entre psicofarmacologia e psicanálise se insere no campo mais amplo das relações entre a psiquiatria e a psicanálise, objeto da reflexão de Freud desde o princípio. Diante da psicofarmacologia contemporânea, os psicanalistas adotam 4 posições básicas:
a) “a psicofarmacologia é um mito criado pela indústria farmacêutica”
b) “os psicofármacos são drogas e como tais produzem apenas estados de alteração de consciência ou estados de embriaguez”
c) “os psicofármacos agem, são eficazes, mas isto não tem qualquer importância para a psicanálise já que a psicanálise, por seus métodos e objeto, se distingue radicalmente da psiquiatria”
d) “os psicofármacos agem, são eficazes, e isto tem importância para a psicanálise, afetando seu campo que tem numerosos pontos de imbricação com a psiquiatria”. Os psicofármacos são um tema fundamental e não podem ficar nas mãos apenas dos psicofarmacologistas, psiquiatras biológicos, neurocientistas.

Como afirmava P. Fedida, “a pesquisa psicanalítica ganha mais, sem ceder em suas próprias exigências, em considerar a incidência dos novos psicotrópicos e em contribuir para a compreensão das mudanças que induzem, se não nos próprios processos, pelo menos em suas manifestações.”

Ariel Bogochvol
Psiquiatra, psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP)

A resposta de Freud à mãe que, em 1935, lhe pediu que curasse seu filho homossexual

A mãe de um jovem homossexual escreveu uma carta a Freud com a intensão de que seu filho fosse “curado” pelo psicanalista. Eis a resposta:
19 de abril de 1935

Minha querida Senhora,

Lendo a sua carta, deduzo que seu filho é homossexual. Chamou fortemente a minha atenção o fato de a senhora não mencionar este termo na informação que acerca dele me enviou. Poderia lhe perguntar por que razão? Não tenho dúvidas que a homossexualidade não representa uma vantagem, no entanto, também não existem motivos para se envergonhar dela, já que isso não supõe vício nem degradação alguma.

Não pode ser qualificada como uma doença e nós a consideramos como uma variante da função sexual, produto de certa interrupção no desenvolvimento sexual. Muitos homens de grande respeito da Antiguidade e Atualidade foram homossexuais, e dentre eles, alguns dos personagens de maior destaque na história como Platão, Michelangelo, Leonardo da Vinci, etc. É uma grande injustiça e também uma crueldade, perseguir a homossexualidade como se esta fosse um delito. Caso não acredite na minha palavra, sugiro-lhe a leitura dos livros de Havelock Ellis.

Ao me perguntar se eu posso lhe oferecer a minha ajuda, imagino que isso seja uma tentativa de indagar acerca da minha posição em relação à abolição da homossexualidade, visando substituí-la por uma heterossexualidade normal. A minha resposta é que, em termos gerais, nada parecido podemos prometer. Em certos casos conseguimos desenvolver rudimentos das tendências heterossexuais presentes em todo homossexual, embora na maioria dos casos não seja possível. A questão fundamenta-se principalmente, na qualidade e idade do sujeito, sem possibilidade de determinar o resultado do tratamento.

A análise pode fazer outra coisa pelo seu filho. Se ele estiver experimentando descontentamento por causa de milhares de conflitos e inibição em relação à sua vida social a análise poderá lhe proporcionar tranquilidade, paz psíquica e plena eficiência, independentemente de continuar sendo homossexual ou de mudar sua condição.

Se você mudar de ideia ele deve ser analisado por mim – eu não espero que você vá – ele terá de vir a Viena. Não tenho a intenção de sair daqui. No entanto, não deixe de me responder.

Sinceramente meus melhores desejos, 

Freud